Cerrados em alerta: o BR-O Bró antecipado e a cultura da queimada no Piauí

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Calor precoce, estiagem e queimadas fora de controle expõem a fragilidade da prevenção, desafiam governo e colocam em risco o futuro da agricultura e da vida nos Cerrados Piauienses.

O que deveria começar em setembro, no chamado BR-O Bró, já se instalou em julho: calor extremo, estiagem precoce, ar seco e fumaça tomando o céu. O Piauí vive a antecipação do período mais quente do ano, e nos Cerrados Piauienses o termômetro não mede apenas a temperatura, mas o avanço do fogo.

O agravante é que as queimadas começam cedo, quando a vegetação já está seca e se transforma em combustível natural. Restos de colheitas, material arbóreo e herbáceo viram massa inflamável, pronta para se alastrar com qualquer fagulha.

Uma tradição que virou ameaça

Não são os grandes produtores de milho, soja ou algodão os principais responsáveis. As chamas brotam, sobretudo, nos baixões, onde a agricultura familiar mantém a tradição da queimada como “limpeza de terreno”. O problema é que o fogo “controlado” quase nunca obedece ao controle: basta o vento mudar, e o que era roçado vira cinza de lavoura, mata nativa ou até casas.

Imagens obtidas pela Gazeta Hora1 mostram focos se multiplicando, avançando sobre áreas produtivas e devastando vegetação nativa. Nos últimos anos, comunidades inteiras já sofreram prejuízos, e vidas foram perdidas.

O clima como combustível da tragédia

Julho nos Cerrados Piauienses é a receita pronta para o desastre:

  • Estiagem prolongada: baixa umidade e ausência total de chuvas;
  • Calor escaldante: a vegetação vira palha seca;
  • Ventos fortes: espalham chamas em segundos, tornando qualquer faísca um incêndio.

A resposta do Estado: prevenção ou improviso?

As Secretarias Municipais de Meio Ambiente (SEMMAS) atuam na linha de frente, organizando brigadas comunitárias que tentam conter os primeiros focos. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros dão suporte com treinamentos, fornecimento de EPIs e estratégias de retaguarda.

Quando a situação se agrava, entram em cena os Bombeiros Militares, e em último caso o apoio aéreo, acionado para grandes incêndios. Mas a grande verdade é que a prevenção ainda é a arma mais poderosa.

Por lei, ninguém pode queimar sem autorização expressa da SEMMA, e o monitoramento das condições climáticas, feito pela Semarh, é fundamental para a chamada “queima controlada” – uma prática que deveria ser exceção, mas que ainda é regra em muitas comunidades.

Mosaico das imagens aéreas retraram o grau de queimadas nos Cerrados – Foto: Reprodução

O alerta que pode salvar vidas

E quando o fogo ameaça cidades inteiras? O Defesa Civil Alerta (DCA) já está em funcionamento no Piauí. O sistema pode enviar mensagens diretamente aos celulares da população em risco, funcionando como um “alarme geral” em casos de tragédia.

Nesta semana, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Semarh se reúnem para lançar o Plano Estadual de Ações Integradas de Combate a Incêndios. Segundo Werton Costa, diretor de Prevenção da Defesa Civil:

“Todos os atores envolvidos neste plano são importantes, mas a participação e o envolvimento direto dos municípios é fundamental. O plano precisa ser divulgado, publicizado e cobrado pela população, pela imprensa e pelas próprias prefeituras”.

Conscientização e desenvolvimento sustentável

No primeiro semestre de 2025, o Piauí registrou quase mil focos de queimadas, com aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. No Cerrado, a área queimada cresceu 12% entre janeiro e março, totalizando 91,7 mil hectares. Diante desse cenário alarmante, os grandes produtores rurais da região, representados por Ani Sanders – produtora e embaixadora do Agro –, reforçam a necessidade de conscientizar pequenos agricultores e comunidades sobre a preservação ambiental e a prevenção de incêndios.

Ani Sanders destaca que as prefeituras precisam investir no meio ambiente também como fonte de receita, lembrando mecanismos como o ICMS Ecológico e os projetos de crédito de carbono, que podem transformar conservação em desenvolvimento sustentável. Para ela, a soma de responsabilidade social, políticas públicas eficazes e gestão ambiental pode mudar a lógica do fogo destrutivo para a valorização da terra e da vida.

O preço da omissão

As queimadas nos Cerrados Piauienses são muito mais que um problema ambiental: são o reflexo de um atraso cultural, de políticas públicas insuficientes e da falta de alternativas sustentáveis para os agricultores.

O Piauí quer ser potência agrícola, mas ainda tolera práticas que destroem o solo, comprometem a saúde pública, empobrecem a biodiversidade e ameaçam vidas.

A pergunta que ecoa em meio à fumaça é inevitável: até quando aceitaremos queimar o amanhã em nome da conveniência de hoje?

Com informações de Gazeta Hora 1

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